Ministério da Saúde diz que vacinação no Brasil pode parar por falta de doses e pede ajuda a chineses

O programa nacional de vacinação contra a Covid-19 no país corre o risco de ser interrompido por falta de vacinas. A afirmação foi feita pelo secretário-executivo do Ministério da Saúde, Élcio Franco, em uma carta endereçada ao embaixador da China no Brasil, Yang Wanming, nesta segunda-feira.

Na carta, Franco pede auxílio de Pequim para a aquisição e envio de 30 milhões de doses da vacina produzida pelo laboratório Sinopharm ainda no primeiro semestre.

O documento foi revelado pelo Jornal Nacional. O GLOBO também teve acesso à carta. O pedido de ajuda aos chineses acontece em meio ao aumento na velocidade da epidemia de Covid-19 e a demora no processo de vacinação contra a doença no país. Dados do consórcio de veículos de imprensa, do qual O GLOBO faz parte, apontam que somente 4,13% da população brasileira, ou 8,7 milhões de pessoas, foi vacinada contra a Covid-19.

Na correspondência, Franco ressalta que o Brasil enfrenta uma nova variante do coronavírus e que a vacinação seria a solução para impedir que ela se espalhe pelo mundo, mas alerta que o programa de imunização pode ser paralisado devido à escassez de doses.

“A campanha nacional de imunização, contudo, corre risco de ser interrompida por falta de doses, dada a escassez da oferta internacional”, diz um trecho da carta. “Por conta disso, o Ministério da Saúde vem buscando estabelecer contato com novos fornecedores, em especial a Sinopharm, cuja vacina é de comprovada eficácia contra a Covid-19”.

No documento, Élcio Franco pede que a Embaixada da China verifique a possibilidade de a Sinopharm fornecer as 30 milhões de doses por preços e cronograma ainda a serem acordados.

A vacina produzida pela Sinopharm, batizada de BBIBP-CorV, não está no rol daquelas com as quais o governo já firmou acordos para a compra. O Brasil aplica atualmente apenas as vacinas AstraZeneca/Oxford, produzida pela Fiocruz, e a CoronaVac, fabricada pelo laboratório chinês Sinovac em parceria com o Instituto Butantan. Em fevereiro, o governo federal anunciou a compra de 20 milhões de doses da Covaxin, produzida pelo laboratório indiano Bharat Biotech, e a aquisição de lotes de imunizantes produzidos pelos laboratórios Pfizer e Janssen. O

pedido de ajuda do governo acontece após pessoas próximas ao presidente Jair Bolsonaro terem feito ataques diretos à China desde o início da epidemia. Em março de 2020, o filho do presidente e deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) fez uma postagem em redes sociais acusando a China de ter escondido a gravidade da doença no começo da pandemia.

O embaixador da China no Brasil reagiu com indignação e pediu uma retratação. Em abril, foi a vez do ex-ministro da Educação, Abraham Weintraub, provocar um atrito diplomatico nas redes sociais com o governo chinês. Weintraub ridicularizou a forma como alguns chineses que falam o português trocam a letra L pela R. Na postagem, o ex-ministro também disse que a China sairia fortalecida da epidemia.

O caso fez com que a Procuradoria-Geral da República (PGR) abrisse um inquérito para apurar a suposta prática de racismo. Em fevereiro deste ano, porém, o Ministério Público Federal (MPF) decidiu pelo arquivamento da investigação sob o argumento de que não havia elementos suficientes para indiciar o ex-ministro. O Globo